quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O DEPRESSIVO NA CONTRAMÃO





                                                                                                                                              Eliane Brum

Em seu último livro, O Tempo e o Cão – a atualidade das depressões (Boitempo, 2009), a psicanalista Maria Rita Kehl nos provoca com uma hipótese sobre a qual vale a pena pensar: a depressão, que vem se tornando uma epidemia mundial desde os anos 70, pode ser a versão contemporânea do mal-estar na civilização. Ela teria algo a dizer sobre a forma como estamos vivendo e sobre os valores da nossa época. Para além da patologia, a depressão pode ser vista também como um sintoma social.

O que nossa época nos exige? Euforia, confiança, velocidade. Temos de ser pró-ativos. O que ela nos promete? Se soubermos traçar nossas metas e construir nossa estratégia, atingiremos o sucesso. Se produzirmos e consumirmos, alcançaremos a felicidade. Ser feliz deixou de ser uma possibilidade esporádica para se tornar uma obrigação permanente. Para nós, seres desta época, nada menos que o gozo pleno. Fora disso, só o fracasso. E o fracasso, este é sempre pessoal. Se não alcançamos o que nos prometeram no final do arco-íris é porque cometemos algum erro no caminho. E fracassar, como sabemos, passou a ser não um fato inerente à vida, mas uma vergonha.

O depressivo, neste contexto, é a voz dissonante. É o cara na contramão atrapalhando o tráfego, como na letra de Chico Buarque. Como diz Maria Rita, é aquele “que desafina o coro dos contentes”. Ela afirma, logo no início do livro: “Analisar as depressões como uma das expressões do sintoma social contemporâneo significa supor que os depressivos constituam, em seu silêncio e em seu recolhimento, um grupo tão ruidoso quanto foram as histéricas no século XIX. A depressão é a expressão do mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo e, como já se tornou chavão, do consumo desenfreado”.

Neste sentido, a mera existência do depressivo aponta, nas palavras da psicanalista, a má notícia que ninguém quer saber. Se basta ser pró-ativo, bem-sucedido e saudável, por que tantos e cada vez mais, como mostram as estatísticas, são classificados como depressivos?

“A depressão”, diz Maria Rita, “é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI. Por isso mesmo, os depressivos, além de se sentirem na contramão do seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social da sua tristeza”.

Cada época cria seus proscritos. Na época da euforia e da velocidade, nada mais desafinado do que um depressivo. Se, em vez de hoje, o depressivo, então chamado de melancólico, vivesse no romantismo do final do século XVIII, “estaria tão adequado à cultura e aos valores de sua época quanto um perverso hospedado no castelo do marquês de Sade”.

Hoje, porém, os depressivos parecem ser não só o portador de uma má notícia, mas de uma doença contagiosa. Quem quer ter por perto alguém que sofre em um mundo cuja existência só se justifica pelo sucesso e pela felicidade plena? Num mundo em que todos têm de estar “de bem com a vida” para merecer companhia?

O depressivo não apenas sofre, mas silencia num mundo em que as pessoas preenchem todos os espaços com sua voz. E não apenas silencia, mas em vez de preencher seu tempo com dezenas de tarefas, uma agenda cheia, se amontoa no sofá da sala e nada quer fazer. Não só é lento, como chega a ser imóvel. Sua mera existência nega todos os valores propagandeados dia após dia ao redor de nós – e também pelo nosso próprio discurso afirmativo e de auto-convencimento.

Ao existir, o depressivo faz uma resistência política passiva ao establishment. Obviamente, ele não é um ativista nem tem consciência disso e preferiria não sofrer tanto. O que Maria Rita nos propõe é enxergar a depressão para além dos aspectos clínicos. Enxergar também como sintoma da sociedade em que vivemos. Como a ótima psicanalista que é, o que ela nos propõe é ouvir. Neste caso, ouvir o que a depressão tem a nos dizer quando escutada como sintoma social, como expressão de um mal-estar no mundo.

Os medicamentos podem fazer enorme diferença nas depressões graves num primeiro momento, para arrancar da apatia e possibilitar uma elaboração dessa dor que permita lidar com a vida de uma forma menos paralisante. Inclusive para romper com o imobilismo e buscar uma escuta pela psicoterapia ou pela psicanálise. Os medicamentos antidepressivos têm sua hora, seu lugar e sua importância. Mas acreditar que a medicação resolve tudo é calar a dor de quem a vive. E, no âmbito social, é ignorar o que ela diz sobre o que há de torto em nosso mundo.

Afirmar que a indústria farmacêutica resolve tudo é silenciar o impossível de ser silenciado, como prova a escalada das estatísticas da depressão. Na esfera social, significa dizer que é uma ótima vida correr desde que acorda até a hora de dormir, sem ter um minuto sequer para elaborar o que de bom e de ruim viveu naquele dia. Sem tempo para viver a experiência. Ou, como diz Maria Rita, vivendo no tempo do Outro.

Acreditar que a epidemia mundial de depressão pode ser erradicada com pílulas é afirmar que no nosso mundo nada falta. E um pouco mais grave que isso: é acreditar não apenas que é possível atingir uma vida em que nada falte, como atingi-la é uma mera questão de adaptação, pró-atividade e saúde.

No âmbito do indivíduo, tratar a depressão apenas com medicamentos é tornar ilegítima a sua dor. É dizer ao depressivo que o que ele sente não merece ser ouvido porque é produto apenas de uma disfunção bioquímica. É reforçar a crença de que o depressivo não tem nada a dizer sequer sobre ele mesmo. É cristalizar o estigma. Sem contar que tentar calar os sintomas da depressão à custa de remédios leva ao embotamento da experiência, ao esvaziamento da subjetividade. O que se sente é silenciado – e não elaborado. E, ainda que alguém achasse que vale a pena se anestesiar da condição humana, o efeito do remédio, como bem sabemos, é temporário.

Para algumas pessoas, encontrar médicos que resolvem tudo apenas com pílulas vai ao encontro de suas próprias crenças – e de sua necessidade de proteção. É mais fácil acreditar ser vítimas de uma doença, uma disfunção que está fora deles, a pensar que é um pouco mais complexo e mais difícil de lidar do que isso. É mais fácil do que aceitar que ele, como sujeito psíquico, está implicado neste mal-estar. Eu tomo remédio e não preciso pensar que algo me incomoda. Eu engulo uma pílula e não preciso lidar com a inadequação que me faz sofrer.

É possível compreender que, para quem já está na contramão do mundo e é visto muitas vezes como um estorvo, ajuda não ter ainda mais essa “culpa”. Tranqüiliza pensar que aquela dor que está sempre ali foi causada por uma disfunção involuntária dos neurotransmissores. E que pode ser resolvida com um comprimido.

O problema é que a realidade mostra que não é tão simples assim. Quem já fez tratamento com antidepressivos sabe que “curar” uma depressão não é o mesmo que tratar de uma micose ou mesmo de uma pneumonia. Não basta tomar remédio: é preciso expressar a dor, é necessário elaborar o sofrimento e, em geral, mudar a vida ou a forma de olhar para a vida e para si mesmo.

Ao conversar com minha filha, também psicanalista, sobre esse tema, ela fez um comentário que cabe neste contexto. “É curioso como os filmes de ficção científica sempre usaram aquela imagem terrorífica de seres humanos levando uma injeção na nuca e se tornando embotados. Isso era assustador e nos assustava”, disse. “Agora, o que assustava passou a ser a vontade das pessoas. Elas querem tomar uma pílula, ou uma injeção na nuca, e ficar embotadas.”

Maria Rita sugere que vale a pena para todos – e não apenas para os depressivos – pensar o que a depressão está nos dizendo sobre nosso mundo. É isto ou continuar assistindo, impotentes, ao crescimento da epidemia, que atinge não apenas adultos, mas adolescentes e crianças, cada vez mais cedo. É preciso prestar atenção nesse mal-estar no mundo, escutá-lo, de verdade e com verdade, sem cair nos contos de fadas contemporâneos que transformam todos os monstros em déficits bioquímicos. Ao contrário de todas as profecias, a indústria farmacêutica não vai nos salvar de uma vida sem vida.

O livro de Maria Rita Kehl é complexo e vai muito além destas minhas primeiras interpretações. Uma das questões mais originais é a relação entre a depressão e o tempo. O depressivo seria também aquele que se recusa a se inserir no tempo do Outro. O nome do livro – O Tempo e o Cão – vem da experiência pessoal da psicanalista, ao atropelar um cachorro na estrada. Ela viu o cachorro, mas a velocidade em que estava a impedia de parar ou desviar completamente dele. Conseguiu apenas não matá-lo. Logo, o animal, cambaleando rumo ao acostamento, ficou para trás no espelho retrovisor.

É isso o que acontece com as nossas experiências na velocidade ditada pela nossa época. Diz Maria Rita: “Mal nos damos conta dela, a banal velocidade da vida, até que algum mau encontro venha revelar a sua face mortífera. Mortífera não apenas contra a vida do corpo, em casos extremos, mas também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica. (...) Seu esquecimento (do cão) se somaria ao apagamento de milhares de outras percepções instantâneas às quais nos limitamos a reagir rapidamente para em seguida, com igual rapidez, esquecê-las. (...) Do mau encontro que poderia ter acabado com a vida daquele cão, resultou uma ligeira mancha escura no meu pára-choque. (...) O acidente da estrada me fez refletir a respeito da relação entre as depressões e a experiência do tempo, que na contemporaneidade praticamente se resume à experiência da velocidade”.

Por coincidência, estava zapeando na TV ontem à noite (domingo), quando encontrei a psicanalista no Café Filosófico da TV Cultura, um dos melhores programas da TV aberta. Lá, ela fez algumas considerações muito interessantes. Anotei duas delas para acrescentar a esta coluna. “Nos dizem que ‘tempo é dinheiro’. Ora, tempo não é dinheiro. Dizer que tempo é dinheiro é uma violência”, afirmou Maria Rita. “Tempo é o tecido de nossas vidas”. E um pouco mais adiante: “Em qualquer sociedade, o poder se instaura por alguma forma de controle do tempo”.

Quem quiser ler o livro de Maria Rita Kehl precisa saber que é um livro difícil. Não se lê fácil como uma daquelas obras de auto-ajuda. Exige tempo, parada, reflexão. Para quem é leigo, é preciso ler e reler alguns trechos, voltar. Talvez até pular algumas partes que, depois de ler e voltar e reler, ainda assim não alcançamos. Mas vale todo o esforço.

Aprendi algo sobre isso, na semana passada, ao ouvir Benjamin Moser, autor da recém-lançada (e excelente!) Clarice, (CosacNaify, 2009), uma biografia de Clarice Lispector. Ele contou que os livros que mais gosta da escritora são os mais difíceis, aqueles que teve de ler para escrever a biografia, e não os primeiros que leu e compreendeu de imediato. Então, disse algo mais ou menos assim: “Os escritores têm de nos alcançar, mas nós também temos de alcançar os escritores”.

Achei genial. E acho que é isso. Vale a pena essa busca para alcançar alguns escritores e suas vozes a princípio obscuras. Alcançar alguém é sempre uma experiência rica – e intransferível. O livro de Maria Rita Kehl, assim como os livros mais estranhos de Clarice Lispector, vale porque ao final deste esforço há uma voz original, dissonante de todas as mesmices que ouvimos – e eventualmente repetimos.

Para mim, que acordo todos os dias – e especialmente na segunda-feira – pensando em como não sentir mal-estar em um mundo tão brutal, que exige uma velocidade que me rouba a vida, fez todo o sentido. Só consigo viver por que a cada dia minha questão crucial não é me adaptar a um tempo que não é o meu. Mas encontrar formas de me recusar a viver segundo valores que para mim não fazem sentido. É esta busca – e esta insubordinação – que me mantém em pé, ainda que cambaleando, às vezes, como o cachorro atropelado por Maria Rita, e até caindo, de tempos em tempos.

Dias atrás, ao conversar com meu amigo Toco Lenzi, um homem que como poucos recusa os valores e a velocidade desta época, ele me contou uma história de sua última passagem pelo Saara, na Mauritânia, que cabe aqui. Toco atravessa o Saara a pé, da Mauritânia a Tunísia, em etapas e sem nenhuma pressa, com nenhum outro objetivo além de viver a experiência de atravessar o Saara a pé. Eu o acompanhei na primeira parte desta jornada para escrever um livro que ainda está no começo.

Toco conheceu um tuaregue que havia deixado o Saara e vivido – muito bem – na Europa. Apesar do que teria sido considerado um sucesso pela maioria de nós, ele resolveu voltar ao deserto e ao antigo modo de vida. Toco perguntou a razão. Ele respondeu: "Vocês têm relógio, nós temos tempo".

sábado, 5 de maio de 2007

1 — CARACTERISTICAS DO ANIMADOR DE COMUNIDADE

Pessoa normal: mulher ou homem.
Não precisa andar bem apessoado, arrumadinho, sofisticado, nem nos gestos, palavras ou atitudes. Nem cabe bem num cristão isso. Também não cair do outro lado do cavalo: relaxado, descuidado. O melhor é ser pessoa normal, atenciosa, rica em simplicidade, espontaneidade, naturalidade, espírito cristão e acolhimento. Por exemplo:

Fácil de se achegar e entrar em relacionamento com os demais. Bem acessível e muito sensível para ouvir e entender cada um. Capaz de receber opiniões e reclamações. Não ser duro demais, seco, nem “cheio” ou agarrado ás próprias idéias. Para o pessoal se abrir com você, você deve ser

Disponível e interessado, disposto em servir, atender, assumir e ajudar na comunidade. Nunca pensar assim: “Eu fiz minha parte. Os outros que se virem”. Você deve se virar para o bem de todos. E garanto que vale a pena, porque o melhor animador, Cristo, fez assim. Apesar de fazer muito, você deve ser.

Humilde e paciente — Humilde não é o mesmo que covarde. Ser humilde é reconhecer as capacidades que temos, dadas por Deus, a serviço dos irmãos. Humilde é quem dialoga, aceita e reconhece que nem tudo o que fazemos, dizemos ou somos é perfeito. Ser humilde é ser corajoso pela verdade. Humilde é quem muda ao notar que errou, ofendeu. O humilde valoriza a Deus e as pessoas. Se você tem temperamento esquentado, nervoso, treine-se para a paciência, porque nos grupos e na comunidade há gente que critica, xinga, negaceia, mente, tapeia, não muda de idéia, impõe... E você não pode perder a calma nem ser bruto. Enérgico é quem leva adiante um trabalho com determinação, na verdade e na caridade. Para tanto, você precisa ser

Imparcial: não puxar nem pra um lado nem pra outro, por capricho. Você só puxa pela verdade, o bem, a comunidade. Você é animador da comunidade, e você é um da comunidade, que mora com o povo. Um juiz que apita um jogo puxando pra um time, é logo notado e atacado. Você unifica a comunidade: reconcilia os brigados; aproxima os marginalizados; comunga Deus e o povo. Se você tem que escolher, sempre deve escolher a verdade, escolher o que serve mais ao povo. Acredite na união dos pequenos, mais que na solução dos poderosos. Deus está nos pequenos. Assim você é

Entusiasta e autêntico — Às vezes é duro ficar alegre e animado. Nem sempre as coisas vão como queremos. Ser alegre é coisa divina. Ninguém é mais feliz do que aquele que sabe que é filho de Deus. Deus sempre é alegre, apesar do que lhe fazemos. Ser otimista mesmo nas crises. Ver o lado bom das pessoas e das coisas. Deixe de lado o negativismo, o pessimismo: são coisas do diabo. Nunca fique demais em comentários negativos, em críticas destruidoras: não levam a nada, porque:

A divisão entre as pessoas e na Igreja só interessa ao diabo!

Você transmite força, alegria, e puxa para o agradável. Alivia o ambiente e não deixa derrotar nada. Isto consegue se você usa modo franco, sincero, contagiante. Por isto, nunca vá a uma reunião azedado, nervoso, tenso, revoltado, impaciente, desacorçoado, ansiado e triste. — Jesus Cristo, o Mestre, nosso Guia e Modelo, Caminho, Verdade e Vida, não era assim. O que precisa mais ser?

Estudioso.— Inteligente não é quem estudou muito, mas quem sabe das coisas. Analfabeto pode ser muito inteligente se tem bom senso, tato, coerência. Estudar não é só ir à escola. Não há melhor escola que a vida, e a vida em comunidade, onde “ninguém ensina ninguém”, mas todos aprendem.
O animador presta atenção aos fatos, à vida e lê, principalmente, a Bíblia, jornais, revistas; se entrosa com outros animadores e participa de encontros, debates e cursos. Sabe que as soluções vêm de todos, por isto não fica teimando nas suas idéias.

E precisa ter fé? Opa! — Ter fé e como! Crer em Deus, nas pessoas, e na gente mesma: sem fé não se tem garantia. A fé garante. Jesus disse que ela até “mexe com montanhas”. Que montanhas? — Montanhas da vaidade, da preguiça, do orgulho, da opressão, da ganância, do egoísmo... quem tem fé derruba essas montanhas ocas, bobas. A fé decide muito na vida. Se eu tenho certeza de que Deus está comigo, vou ter medo de quem e de que?

Fé e convicção. Convicção de que Deus é o primeiro da comunidade. Sem ele nada anda. “Onde dois ou três se reúnem em meu nome, por causa do meu Evangelho, eu estou no meio”. E se você tem Deus, você tem

Bom humor e motivação — Bom humor é aquela atitude aberta, emotivamente feliz. Ë otimista, confiante no futuro. Ë ser simples e disposto. Corajoso. Não troca as coisas. Nem altera tudo, principalmente o andamento dos encontros. Não pode hoje ser assim, amanhã ser o contrário: o pessoal estranha, desgoverna o ritmo, desmancha o grupo. Coragem e continuidade são coisas importantes para motivar.
E como motivar as pessoas indiferentes? — Comece dando o exemplo:
converse mais com elas; elogie suas idéias. Mostre-lhes o progresso das idéias deles, e como ajudam a comunidade. A opinião de todos ajuda a todos. E dê a essa gente mais tarefas para que se saiam bem. A partir disto, elas gostam de você, da comunidade, do grupo, mas seja honesto nas palavras e opiniões, sabendo:
1 — O que dizer
2— Como dizer
3 — Quando dizer, sempre com atenção, educação e respeito. Para isto:

Saiba ser discreto, isto é, guarde os segredos. Não se aproveite de casos e informações de fora do grupo para atacar alguém. Procure ser prudente, previdente e providente.: prudente é ser cauteloso nos debates sem ferir a ninguém, nem defender tudo à primeira vista. Previdente é quem prevê o andamento da reunião, da comunidade; encaminha e sabe por onde vai, porque preparou o encontro, o andamento geral, com antecedência, assim providencia tudo junto com outros.

Mas... não se perca — Você se perde se quer fazer tudo sozinho. Se perde se fica perdendo tempo em detalhes e discussões bobas e assuntos paralelos. Dê um jeitinho de que todos fiquem no assunto. Não perder o essencial. Também não seja demasiado duro, nem tumultue ou sobrecarregue a cabeça do pessoal. Veja que todos acompanhem.
Mesmo que a caminhada saia menos bem, não faz mal, mas dê sempre voz e vez a todos. Treine-se deixando que os outros falem. Ajude-os. Desenvolva substitutos. Distribua responsabilidades aos tímidos ou aos ariscos, com medo de falar ou se comprometer.

Você sabe que...? Cada pessoa é diferente da outra: problemas diferentes, temperamento, idade, sexo, cultura, família, educação, saúde, emprego, salário, trabalho, casa, esporte, política, vida, alimentação, gosto, escola, consciência, moral, fé, religião.., contas a pagar... nervos, francos, simpáticos, azedos, mesquinhos, pontuais, invejosos, desconfiados, esfor­çados, liberais, cuidadosos, descuidados... quanta diferença num grupo, numa comunidade. Claro que as reações são diferentes: procure ser atento a tudo isto.

Então, precisa ter vocação para ser animador? Tudo o que você faz é feito com vocação — certa ou errada. Melhor é acertar a vocação. Vocação é um dom que Deus nos dá para servir melhor aos outros. E tudo o que você faz para servir, vem da vocação. Sem vocação a gente vira funcionário, e Deus não precisa de funcionários, nem o povo. Vocação não é profissão. Vocação é sentir-se chamado por Deus e pelo povo para construir o Reino da fraternidade. Deus chama e o povo espera nossa resposta:
Deus faz a proposta — nós damos a resposta.
Abra espaço. Importante é abrir espaço para todos terem seu lugar ao sol. E puxar para a frente.
— Faça recepção cordial, amigável. Interesse-se por todos.
— Vá aos encontros, à comunidade bem desarmado, por fora e... por dentro. Você cresce e ajuda a crescer todo mundo. Faz como Jesus que “crescia em idade, conhecimentos e perfeição” (Lc 2,52). Você faz o papel de Jesus Cristo: ajuda as pessoas a mudarem a si e a estrutura que as esmaga.


Será que sou capaz? — E por que não? Embora você tenha a maioria das qualidades acima ditas, você precisa conversar muito, sabe com quem? — Com Deus! Com Deus e com as pessoas. Só assim entende mais e acerta melhor.
Não imagine que ser animador é achar tudo pronto, fácil. Você tem que ser o primeiro, sempre e em quase tudo, não para mandar, mas para puxar. O primeiro a comparecer e o último a sair da comunidade.
— Você é exemplo — positivo ou negativo; o mais forte.
— Você é aquele que mais ouve do que fala.
— Quem leva mais sugestões e menos reclama.
— Quem mais respeita aos outros, — mais do que é respeitado.
— Quem resolve mais casos, com os demais, não pela violência.
— Quem acorda problemas e os enfrenta com inteligência e amor.
— Quem mais divulga as coisas boas da comunidade.
— Quem melhor organiza — ao menos na cabeça — a comunidade.
— Quem mais ajuda a limpar o terreno e a semear.